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28 de junho de 2012

A Pedagogia do Período da Conquista do Brasil

Introdução

A Pedagogia que aqui vamos retratar embora datada a pouco mais de 500 anos, remonta uma filosofia milenar e que se estende até nossos dias. É a educação que se desenvolveu entre as tribos indígenas que aqui viviam.
Quando os europeus aqui chegaram estima-se que havia no país entre 5 milhões de nativos, sendo que só na bacia amazônica o número chega a 5.600 habitantes e cerca de 1.300 línguas somente nesta região. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis ( região do litoral ), macro-jê ou tapuias ( região do Planalto Central ), aruaques ( Amazônia ) e caraíbas ( Amazônia ).
Neste ponto, destaca Caleffi: “Assim, não existe ‘o índio’ portador de uma cultura homogênea, mas um mosaico de culturas diferentes entre si e diferentes da do colonizador”. (CALEFFI, pág. 33)
Embora a educação indígena não fosse institucionalizada como a que conhecemos hoje, as formas como ocorre a educação e o que esta compreende são características e peculiares de cada cultura.
Os relatos que nos chegam até hoje são dos “descobridores” (e aqui abrimos um espaço para questionar quem são os verdadeiros descobridores desta terra) carregados de preconceitos e julgamentos sob o ponto de vista da sua própria cultura.
Américo Vespúcio ao relatar sobre uma de suas viagens ao Novo Mundo, descreve em um trecho da carta a Lorenzo de Pietro Medice o seguinte: “Esta terra é povoada de gentes completamente nuas, tanto os homens quanto as mulheres. Trabalhei muito para estudar suas vidas, pois durante 27 dias dormi e vivi em meio a eles. Não tem lei nem fé alguma, vivem de acordo com a natureza e não conhecem a imortalidade da alma. Não possuem nada que lhes seja próprio e tudo entre eles é comum; não tem províncias e reinos, não tem reis e não obedecem a ninguém”. Cristóvão Colombo também dá sua contribuição ao se referir aos índios ao reis católicos: “Estes gentios ignoram completamente a prática das armas. Com cinqüenta homens será fácil subjugá-los e fazermos deles o que quisermos.”
[1]
Ao interpretar estes dois relatos percebemos a que nível os povos ameríndios eram considerados pelos europeus: como primitivos e não civilizados, a mercê de qualquer domínio.
A visão européia não deverá servir de parâmetro para esta pesquisa, pois ela é exclusivista, distorcendo o verdadeiro sentido da educação. Caleffi nos ajuda neste sentido ao dizer que “(...) necessitamos um conceito que entenda educação com um amplo processo não vinculado necessariamente ao um sistema de ensino institucionalizado ou mesmo a existência da língua escrita, mas a educação como o processo de socialização dos indivíduos em uma dada cultura. Todos os elementos e noções que um sujeito apreende e que faz dele membro de uma determinada comunidade constitui um processo educativo. Aquilo que aprendemos de nossos pais, parentes e do grupo no qual vivemos, a forma herdada, cotidianamente reinventada de compreensão de um cosmos” (CALEFFI, pág. 32).
Cultura e educação são entendidas como processos inseparáveis, sendo assim impossível desvincular o estudo da cultura indígena de suas práticas educacionais. Desta forma, o objetivo deste trabalho é realizar um estudo da educação indígena em sua amplitude.


A Primeira Pedagogia do Brasil no Período da Conquista pelos Portugueses

A Educação no Contexto Indígena

O índio brasileiro por ocasião da chegada dos portugueses, ainda vivia na época do mito. Embora Tupã fosse seu principal deus, sua religião tinha espaço para adoração de vários outros.
Sua arte era primitiva, extraindo de algumas plantas cores fortes para a ornamentação. O índio era sadio, guerreiro e exímio em caça e pesca. As relações familiares traduziam a felicidade que viviam em seu universo. No mundo adulto permanecia o domínio da imaginação no lugar da inteligência.
“A educação indígena era eminentemente empírica, consistindo, antes de mais nada, em transmitir através das gerações uma tradição codificada. A escola era o lar e o mato; muito mais importantes as lições do exemplo que as das palavras. (...) muito mais empíricas do que científicas, muito mais físicas do que intelectualizadas, modeladoras do homem para capacitá-lo a enfrentar muito mais a vida prática e concreta do que determinada profissão, própria e típica da sociedade e cultura evoluídas”. (TOBIAS, pág. 26)
A seguir vamos analisar algumas aspectos da cultura indígena que envolvem a educação.

Religião/ Mitos

Através das histórias contadas de geração em geração que as culturas de tradição oral conseguem transmitir as novas gerações, as normas de conduta e os mitos (que são as verdades absolutas dos fundadores daquela cultura, portanto são inquestionáveis).
Conforme a citação de Caleffi:
“As normas de conduta social, bem como tudo o que um sujeito necessita saber para fazer parte de uma comunidade de tradição oral, encontram-se presentes nos mitos das culturas destas comunidades, nas histórias sagradas. Os mitos são as histórias exemplares vividas pelos ancestrais e pelos heróis civilizadores em um tempo considerado pré-humano, e contêm todos os ensinamentos necessários que um indivíduo tem que saber para pertencer a uma determinada cultura...” (CALEFFI, pág. 39).
Todos sabem contar estes mitos, e ao fazê-lo estão reafirmando e renovando sua cultura. A memória destes povos é mantida e através dela que a cultura permanece.
Estas histórias são contadas conforme a idade do indivíduo, sua maturidade, sexo e elas lhe dizem respeito dos afazeres e responsabilidades da vida.

Aprender = imitar

Nas comunidades indígenas uma das principais formas de aprendizagem é através da imitação. É imitando os adultos que os pequenos índios aprendem a caçar, a pescar, a ter cuidado com as plantas, etc. Nestes momentos onde as crianças imitam os adultos, propiciam oportunidades para brincar e escutar os ensinamentos dos mais velhos também.
As crianças não são castigadas e são tratadas pacientemente pelos adultos, que respeitam seus enganos infantis e ritmo próprio.
É através desta educação que a criança toma conhecimento dos mitos dos ancestrais, desenvolve aguda percepção do mundo e aperfeiçoa suas habilidades.

Sociedade

A sociedade indígena é fundamentada por laços de parentescos. O individuo se encontra totalmente inserido na comunidade, onde aprende seus deveres e diretos. As comunidades são estabelecidas por graus de parentesco e casamentos.
Estas sociedades apresentam um modo de produção inverso ao capitalismo sanguinário que conhecemos; trabalham apenas para viver.
A divisão do trabalho é feita por sexo e maturidade. Trabalham apenas para satisfazerem suas necessidades diárias. Alcançadas, cessam o trabalho.
Não colhiam mais que necessitavam e não pescavam além do necessário. Toda a sua subsistência era proveniente da natureza. Se, por ventura, houve algum tipo de excedente, a medida a se tomada era confraternização. Desta forma, estendiam-se mais alianças. Esse ato exprime a noção de que não possuíam bens próprios.
As técnicas utilizadas eram simples porque correspondiam a uma produção pequena, voltada para a agricultura de subsistência. Para plantar mandioca, por exemplo, cavavam o chão com algum objeto pontiagudo feito de madeira e enfiavam a rama. Depois de algum tempo arrancavam a mandioca e a transformavam em farinha, por um processo também muito simples. O mesmo se pode dizer da preparação do peixe e da caça que eram levemente assados em fogo brando.
A sociedade indígena possui lideres que eram escolhidos de acordo com a necessidade coletiva. Ele deveria ser generoso, pois assim promoveria a reciprocidade, ato de se alternarem na compartilha de alimentos e assim se socializarem; deveria ter a capacidade de oratória, pois assim ele poderia repetir elementos importantes da cultura e ter coragem para garantir a continuidade do grupo.
A relação de poder existe, mas de modo diferencial. A liderança pode ter um conhecimento mais especifico, de forma privilegiada, mas todos, de acordo com o sexo e maturidade, possuem o mesmo conhecimento. Por exemplo, todas as mulheres sabem fazer cerâmica, se esta fizer parte das atividades femininas na respectiva cultura. “Assim, não vamos encontrar um único professor nas sociedades de parentesco, mas tantos professores quantos sujeitos compuserem a comunidade, o que significa que ninguém possui um status de professor que o diferencie do corpo social. A educação, principalmente das crianças, é assumida pela comunidade como um todo”. (CALEFFI, pág. 38).

Deixando de ser criança

Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.
Em algumas tribos brasileiras, os meninos são iniciados na vida adulta através de uma cerimônia, na qual colocam uma luva cheia de formigas venenosas. Este deverá entrar pelas matas e procurar o remédio. Se não conseguir vencer esta etapa os mais velhos lhe tratam, mas não será considerado adulto.
As meninas que começam a ter menstruações são reunidas em uma cerimônia anual e são embebedadas e tem seus cabelos arrancados.


Conclusão

Para nós, os chamados brancos e civilizados, é difícil compreender e para muitos aceitar as práticas indígenas que se reproduzem ainda hoje.
Como entender uma sociedade sem um Estado institucionalizado, sem lucro nem luxo? Como aceitar o fato que produzem apenas o necessário para a sobrevivência, sem ambição, sonhos materiais?
Os nossos padrões sociais ditam regras que não nos permitem ver além das imposições da elite. Não enxergamos a beleza da convivência em grupo, da compartilha dos bens, na educação que prepara para a vida simples, mas feliz.
Os rotulamos como preguiçosos e primitivos. Sem entender que são satisfeitos e com uma cultura própria. Anulamos a história que esse povo nos legou, sem pensar que se alguns de seus valores fizessem parte da nossa educação, certamente o Brasil seria mais ético, solidário.
Porem, isso não significa que seja tarde para olharmos para o outro como alguém faz parte da minha “tribo” e que pode receber dos meus alimentos excedentes em uma confraternização de caráter recíproco.

[1] Retirado do site: http://www.vidaslusofonas.pt/

Referências Bibliográficas

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia. 3ª edição. Editora Moderna. São Paulo, 2006.
STEPHANA, Maria. BASTOS, Maria Helena Câmara. Histórias e Memórias da Educação no Brasil – século XVI – XVIII. Volume 1. Editora Vozes. Petrópolis – Rio de Janeiro, 2004.
TOBIAS, José Antônio. História da Educação Brasileira. 4ª edição. Editora Ibrasa. São Paulo, 1985. 350 páginas
www.suapesquisa.com.br

18 de outubro de 2010

A Escola da Ponte e a Educação Brasileira

Por Liege de Oliveira

A Escola da Ponte tornou-se referência mundial em educação. A ausência de salas de aula, o aglomeramento de alunos por interesses em comuns e o professor orientando os trabalhos desenvolvidos por períodos de quinze dias constituem-se grandes atrativos para a escola fundada pelo português José Pacheco.
Intelectuais e profissionais da educação de todo o globo já visitaram a instituição. Seus emblemas libertários, revolucionários e solidários suscitam em pensadores o que a repetição desta experiência nos mais variados lugares poderia surtir muitos benefícios as populações.
O Brasil possui uma tendência compulsiva por importar modelos educacionais. Este foi o caso da aprovação automática instituído em alguns estados brasileiros. As controvérsias sobre a eficácia de tais modelos têm dividido educadores e servido até como repertório de campanha eleitoral de políticos da oposição.
O sucesso da Escola da Ponte não se encontra somente em suas inovações, mas no porquê inovou. Seu histórico informa que as reformas educacionais surgiram de necessidades e dificuldades constatadas no cotidiano escolar encontradas pelos professores e funcionários. Ao pensarem sobre a situação, foram propondo mudanças e instituíram o que hoje conhecemos por Escola da Ponte. E esta é a essência da lição da Escola da Ponte: pensar sobre a realidade, propor e realizar mudanças, não a metodologia adotada em si. Esta é só uma consequência.
Construir uma escola de nosso tempo, ou, como alguns preferem, a frente do nosso tempo, é tarefa árdua. Precisamos capitalizar recursos, dar autonomia e valorizar os profissionais e ferramentas para que a mudança possa acontecer.
O Brasil possui e já possuiu escolas que serviram eficazmente seu tempo. Um caso típico, foram as escolas que imigrantes alemães fundaram nos estados sulinos. Com as ferramentas e recursos que possuíam proveram as crianças o melhor que podiam em educação.
Assim, seu exemplo nos convida a criar com base na realidade que possuímos e não, simplesmente, testarmos ideias estrangeiras como se elas personificassem o ideal educacional.

6 de junho de 2010

Corte de verbas para a Educação em 2010

Confira os comentários de economistas da UNB sobre o corte de 1,3 bilhões de reais em Educação no programa Espaço Aberto da Globo News.

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1597597-17665-383,00.html

5 de junho de 2010

Volta às Aulas - Stephen Kanitz

Por Liege de Oliveira

No artigo “Volta às Aulas” Stephen Kanitz (clique no título para ler o artigo) aborda duas questões essenciais:

I – A habilidade essencial ao homem moderno que é de aprender a pensar. Para garantir a sobrevivência no mundo, precisamos aprender a pensar para tomar decisões. Essa habilidade o ajudará a alcançar o sucesso.

II – O apego do ensino brasileiro em estudar o que os grandes homens do passado escreveram, como se, seus livros, fossem a panacéia para todos os nossos problemas. O ensino deverá levar o estudante a pensar e observar a sua realidade.

Esta reflexão de Stephen Kanitz nos faz levantar algumas questões do atual quandro escolar brasileiro. Me parece injusto afirmar que ainda ensinamos como na Idade Média. Temos muitos exemplos de professores que buscam construir sua práxis pedagógica dentro de uma esfera que promova uma educação para o pensar.

No entanto, a sala de aula também está subordinada a uma política educacional, e, tanto na rede pública como na privada, o professor é mais pedreiro que arquiteto de sua prática. Aí percebemos que nem sempre é possível fazer mais. Quando cito isso, muitos acham um absurdo, mas a rotina, a burocracia, o currículo, as exigências, o Saresp, a Provinha Brasil são consumidoras da energia do professor (pobre peão!).

Mas todas as artimanhas do “sistema” não podem nos emaranhar, porque, afinal, sabemos que cabe ao professor apoderar-se o máximo possível da realidade e, assim, burlar a burocracia e todas as exigência postas ao docente e promover uma educação pensante. Como ajuda nesta trajetória, a psicologia metacognitivista tem balizado muitos profissionais na busca da didática que promova tal ideal.

O professor precisa estar ancorado em um referencial teórico para poder proceder adequadamente nesta empreitada. A psicologia metacognitivista, desenvolvida por John Flavell em meados dos anos 70 (vale lembrar que a teoria busca validação no campo científico), tem por pressuposto que

“[...] ao fazer uso da metacognição, o sujeito torna-se um espectador de seus próprios modos de pensar e das estratégias que emprega para resolver problemas, buscando identificar como aprimorá-los. Nesse sentido, e tal como postula Flavell (1976), metacognição envolve também monitoramento ativo dos processos de pensamento, regulando-os e orquestrando-os para alcançar um determinado objetivo. Esse autor aponta dois componentes centrais nesse conceito: os conhecimentos metacognitivos e as experiências metacognitivas.” (DAVIS, 2005)

Assim sendo, a educação poderia obter muito mais de seus alunos, se estes, fossem gestores do próprio saber, trilhando o caminho da aprendizagem, possuindo consciência de como o conhecimento é produzido e processado organicamente. Davis (2005) diz ainda que

“Fica patente, então, que a metacognição é aspecto central na implementação de uma cultura do pensamento, uma vez que é por seu intermédio que se pode: construir conhecimentos e habilidades que tenham maior possibilidade de sucesso e de transferência; aprender estratégias de solução de problemas que sejam passíveis de serem auto-reguladas; adquirir autonomia na gestão das tarefas e nas aprendizagens, auto-regulando-se e se auto-ajudando; construir uma auto-imagem de aprendiz produtivo e, com isso, obter motivação para aprender.”

Concluo salientando que o professor precisa munir-se da compreensão do desenvolvimento humano para, assim, promover uma educação que estimule o pensamento e a autonomia.

Para ampliar o assunto, acesse:

Livro em português de John Flavell. http://www.tudomercado.com.br/tm/aviso/img_avisos/Submarino_21236.jpg

Artigo interessantíssimo sobre Metacognição e estratégias de aprendizagem ddo Grupo de Estudos de Aprendizagem e cognição. http://www.geac.ufrj.br/index.php?option=com_content&task=view&id=57&Itemid=81

Bibliografia:

DAVIS, Claudia. NUNES, Marina M. R. NUNES, Cesar A. A. M etacognição e sucesso escolar: articulando teoria e prática. Cadernos de Pesquisa, vol.35, no.125. São Paulo: maio-agosto, 2005.

7 de fevereiro de 2010

Avaliação Educacional

Por Tafnes do Canto
Os métodos avaliativos tem sido alvo de debate da pedagogia ao longo dos últimos anos. Educadores e educadoras preocupam-se em relação a melhor forma de medir o desempenho dos estudantes. E é neste ponto que percebemos o equívoco que tem fomentado tais querelas. Os métodos avaliativos podem ser mais funcionais quando entendidos por uma perspectiva justamente oposta. A avaliação não é a hora do ajuste de contas ou de colocar os estudantes na berlinda como se vê em muitas salas de aula.
Uma visão adequada de avaliação leva os professores a fazerem uso dos instrumentos avaliativos para diagnosticar as dificuldades dos estudantes, bem como para perceber quais habilidades e competências foram desenvolvidas. Neste ponto de vista, a avaliação servirá para indicar a necessidade de uma mudança de rumo, nas práticas pedagógicas sempre que os objetivos não forem alcançados. Ainda poderá tranquilizar a todos quando a avaliação demonstrar que o estudante aprendeu.
Mesmo com os muitos estudos realizados na área de pedagogia, a avaliação somativa, oriunda dos métodos tecnicistas, permanece sendo amplamente empregada nas instituições de ensino. Porém, no sentido de que a avaliação é um meio para o professor e não um fim em si para o estudante - como explicitamos anteriormente – a avaliação somativa deveria dar lugar a avaliação formativa.
Esta forma de avaliar – com critérios bem definidos e instrumentos coerentes com os objetivos - propõe-se a perceber e valorizar o crescimento do estudante ao longo do processo de aprendizagem.
Uma boa sugestão de recurso para a realização de uma avaliação abrangente são os portfólios, nos quais os estudantes armazenam as atividades, relatórios de aula, reportagens, desenhos ou outras produções independentes relacionadas ao tema abordado. O portfólio passa a ser mais do que um simples porta-folha para representar o conhecimento construído ao longo do processo de ensino-aprendizagem que se pretende avaliar.

21 de agosto de 2009

Educação à Distância






A terminologia ensino à distância e educação à distância denota diferença de conceitos. O primeiro termo não abrange o aprender do estudante e do professor, apenas indica um ato unilateral da função docente: ensinar, transmitir conhecimento. Por outro lado, a nomenclatura educação à distância é mais abrangente, indicando a formação do individuo.



A educação à distancia é aquela em que as aulas ocorrem de modo majoritariamente não-presencial, com algumas horas obrigatoriamente em sala de aula. Dentro deste módulo de ensino existem diferentes abordagens, há ensinos à distancia oferecidos por transmissões de satélites ou com plataformas virtuais, nas quais professores e estudantes interagem por meio de fóruns, pesquisas, blog, chat, entre outras ferramentas disponíveis.


Belloni, professora na Universidade Federal de Santa Catarina, estudiosa dos processo de educação à distancia explica que esta pode ser entendida “como parte de um processo de inovação educacional mais amplo que é a integração das novas tecnologias de informação e comunicação nos processos educacionais” (2002, p.123) .


Certamente muitas das ferramentas criadas para a educação à distancia poderiam otimizar até mesmo o ensino regular, aproximando pedagogia e tecnologia - a linguagem falada pelos estudantes da sociedade pós-moderna. É claro que em uma sociedade marcada pelas desigualdades como a nossa, esta não é uma condição homogênea e uniforme, mas, um ponto a ser considerado.


A educação à distancia está em expansão por possibilitar a democratização do ensino, permitindo que um maior número de pessoas venha a cursar o ensino superior seja cursos de graduação ou tecnólogos – outra tendência da atualidade. Esta democratização do ensino atende a uma necessidade do mercado que precisa com urgência de pessoal qualificado para as mais diversas áreas de trabalho. O educação à distancia ainda apresenta a vantagem de ser menos onerosa em comparação com a regular.


Este modo de fazer educação exige um perfil específico de aluno e de professor. O ideal é que o professor seja dinâmico, possua domínio de conteúdo, domínio da tecnologia, ou seja, das ferramentas da educação à distância, ser disponível, acessível no ambiente virtual, assumindo a condição de mediador. Do aluno de EaD espera-se que apresente autonomia, disciplina, que possua domínio das ferramentas que fará uso e que seja ativo no processo de aprendizagem.


Um projeto pedagógico de educação à distancia precisa priorizar leituras reflexivas, formas de discussão, integração e socialização dos conhecimentos, das ideias e dúvidas que surgiram a partir destas mesmas leituras. Fundamentalmente serão estas leituras e discussões que auxiliarão os estudantes a atingirem os objetivos traçados.


Além disso, é importante contemplar a interdisciplinaridade e a formação integral do individuo. Metodologicamente é essencial que preveja o uso de instrumentos e atividades diversificadas dentro do ambiente virtual, por exemplo. A plataforma em uso precisa ser um grande fórum de debates, constantemente acessada por todos. É função dos professores manterem este ambiente com uma profusão de ideias, argumentos e debates a partir de questões e propostas que promovam a participação de todos os envolvidos no processo.


Outro aspecto, tratando-se de cursos de graduação e pós-graduação seria a previsão da construção de um banco de monografias, dissertações e teses online para a armazenagem e consulta das monografias produzidas pelos estudantes do curso, já que a publicação de todas em forma de livro, por vezes, é inviável financeiramente. O projeto político pedagógico certamente precisa contemplar a socialização do conhecimento. Assim, reconhecimento como instituição de pesquisa e divulgação cientifica poderia vir a partir da proposta de construir uma revista registrada (ISSN) online.


Assim, como os projetos políticos pedagógicos da educação regular precisam ser constantemente revisados para que possam atender as necessidades presentes e futuras, com os projetos pedagógicos da educação à distancia não é diferente. Há que se estar sempre pesquisando e encontrando melhores maneiras de formar o indivíduo dentro desta modalidade de ensino sem fronteiras.


Referência Bibliográfica

BELLONI, Maria Luiza. Ensaio sobre a educação à distância no Brasil. Educação & Sociedade, ano XXIII, no 78, Abril/2002, p. 117 – 142.

19 de julho de 2009

O Cérebro em Transformação


Embora a resenha abaixo esteja relacionada a biologia, o tema nos interesse por tratar-se de uma obra cujo propósito é entendermos melhor nossos adolescentes/educandos. Confira!!


O Cérebro em Transformação
Por Tafnes do Canto




As recentes pesquisas da neurociência têm apresentado resultados esclarecedores sobre o desenvolvimento e o comportamento do ser humano. Dentro destes importantes estudos está a obra de Suzana Herculano-Houzel, “O cérebro em transformação”, publicada em 2005 pela Editora Objetiva. Seu trabalho tem a intenção de informar leigos sobre as aplicações na neurociência à vida cotidiana, tarefa que cumpre com êxito, já que com linguagem simples trás respostas sérias as inquietantes dúvidas a respeito das transformações vividas pelo cérebro do adolescente, um cérebro em transformação – tornando crianças em adultos.
O propósito da autora com a obra é apresentar as mudanças que ocorrem no cérebro na transição da infância para a maturidade e propor que as transformações vividas pelos adolescentes são muito mais da responsabilidade do cérebro do que dos hormônios.
Popularmente, os hormônios são responsáveis por todas as alterações de humor e transformações corpóreas pelas quais os adolescentes passam, porém as pesquisas indicam que os hormônios apenas executam um programa de desenvolvimento que tem inicio pela ação do cérebro. A autora explica que “ainda que as mudanças mais óbvias sejam exibidas no corpo, quem dispara e coordena a adolescência é o cérebro” (HOUZEL, 2005, p. 15)
Para começar, no principio da adolescência o cérebro cresce até atingir o tamanho adulto, na verdade, neste período algumas estruturas se ampliam, enquanto outras reduzem de tamanho, sofrendo reorganizações também de ordem química, o resultado é um amadurecimento funcional do sistema nervoso. As grandes alterações do cérebro, no cotidiano do adolescente, apresentam-se nas mudanças dos gostos, na vulnerabilidade para os vícios, nos transtornos de humor, na variação das vontades e dos desejos.
O mecanismo utilizado pelo cérebro para saber a hora certa de iniciar a transformação é uma proteína chamada Leptina, que comunica ao sistema nervoso o aumento do nível de gordura no organismo - pois o corpo necessita de certo nível de gordura acumulada para dar inicio ao processo. No entanto, não é a Leptina que convence o cérebro, mais precisamente o hipotálamo, a iniciar a puberdade, o fator que promove, realmente, a adolescência ainda é desconhecido, mesmo para os cientistas.





Os hormônios não conduzem o processo de maturação do ser humano, porém desempenham papel especial na puberdade, promovendo a acentuação do dimorfismo sexual, ou seja, as diferenças entre os sexos que estão associadas, também, as diferenças comportamentais entre homens e mulheres.
Somente quando “as regiões pré-frontais do cérebro, que permitem o raciocínio abstrato e o aprendizado social, finalmente amadurecem, e com isso nasce o jovem adulto responsável (...), empático, e bem inserido na sociedade” (HOUZEL, 2005, p. 14).
Elucidando as transformações do cérebro adolescente, Suzana Herculano-Houzel fornece informações que podem ajudar os jovens a compreender o período que vivem, capacitando-os a entenderem-se e aceitarem-se efetivamente. Os pais também são beneficiados, pois com mais conhecimento dos processos neurológicos que seus filhos adolescentes estão sujeitos, são capazes de ajudá-los a viver esta fase, evitando os conflitos familiares.




Referências Bibliográficas

HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O Cérebro em Transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

Neurociência – Mestrado de Informática Aplicada a Educação. Acesso em 16.jun.2009. Disponível em:
http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/RenatoMaterial/neurociencia.htm

Imagem: Sociedade Brasileira de Neurociência. Disponível em:
http://www.sbneurociencia.com.br/draclaudia/artigo_claudia.htm.
Acesso em 16. Jun.2009.

6 de novembro de 2008

O Sonho do Professor Sobre a Educação Libertadora


Por Tafnes do Canto

O título homônimo deste texto remete ao prefácio do livro-diálogo de Paulo Freire e Ira Shor, Medo e Ousadia: O Cotidiano do Professor. Embora a referida leitura sirva de inspiração, um sonho é algo muito pessoal. Então, o que apresento aqui não é o sonho do professor Paulo Freire e da professora Ira Shor sobre a educação libertadora. Mas, o meu próprio sonho de educação libertadora.

A educação libertadora começa com a consciência da falta de liberdade. Ao admitir esta condição – e aqui vai o trecho que considerei mais inspirador -,


“podemos aprender a ser livres, estudando nossa falta de liberdade. Esta é a dialética da sala de aula libertadora. É um lugar em que pensamos criticamente sobre as forças que interferem em nosso pensamento crítico. Assim, as salas de aula libertadoras iluminam as condições em que nos encontramos para ajudar-nos a superar estas condições” [1]


Temos livre-arbítrio, diariamente tomamos decisões. O que acontece é que esta aparente liberdade está condicionada, é influenciada por meios de comunicação, instituições, órgãos e líderes das mais variadas organizações que proclamam seu ponto de vista para serem absorvidos pelas massas (e este é apenas um modo pelo qual a liberdade pode ser condicionada). É por isso que pensar criticamente é tão importante para o sonho de uma educação libertadora tornar- se uma realidade.

A sala de aula libertadora promove o desenvolvimento do indivíduo de modo que ele possa pensar por si mesmo, olhar a informação e analisá-la sob diversos ângulos. Pense no que isso pode promover. Vejo um ser humano que é capaz de compreender o próximo por que desenvolveu algo pouco conhecido em nossos dias, a empatia. Vejo um cidadão que não se deixa enganar, pois não aceita tudo o que lhe dizem. Vejo uma população que não se conforma com a fome, com a guerra, com o desemprego. A mudança, no entanto, não vem de uma visão negativa. A mudança vem de uma ação positiva. A educação pode não ser libertadora agora, mas esta não precisa ser uma situação permanente. E penso ainda que em muitos lugares esta transformação já começou a acontecer, mesmo que seja nos pensamentos, nos desejos e certamente nas salas de aula de professores sonhadores, que não se incomodam em receber a alcunha de utópicos.

É difícil para uma sociedade acostumada ao imediato, ao instantâneo compreender que a educação libertadora é um processo contínuo e progressivo que dura a vida toda – a escola não é a única e total responsável. Não se trata de acumular conhecimento por anos e anos, este não é o objetivo da educação libertadora. Seu intuito é preparar o individuo para a vida, para ser útil, para contribuir e ser agente de transformação em sua comunidade- falo da comunidade, porque seria um trabalho hercúleo para um individuo ser responsável pela mudança da sociedade.

A educação libertadora precisa romper com a lei mercadológica, a escola não é um supermercado de informações, o currículo não é a lista de produtos. Não é suficiente formar indivíduos com capacidade intelectual e amplo conhecimento. Além do mais, o professor que sonha com uma educação libertadora entende que a aquisição desses conhecimentos não são uma finalidade, mas uma forma de servir melhor a sociedade. De outro modo, teremos indivíduos de grande capacidade visando apenas grandes lucros, não haverá consciência social, nem o entendimento do que cada ato inconseqüente pode provocar em outrem e ao meio ambiente. Professores que sonham com a educação libertadora entendem a importância de desenvolver o senso de responsabilidade social em seus alunos, pois a educação por si só não faz sentido sem utilizá-la em benefício dos semelhantes.
[1] FREIRE, Paulo e SHOR, Ira. Medo e Ousadia: O Cotidiano do Professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 25.

11 de março de 2008

“Por uma escola do nosso tempo”

Vital Didonet, 1998.
por Tafnes do Canto


No seu artigo “Por uma escola do nosso tempo”, Vital Didonet discorre sobre a escola e seus desafios para o século XXI. A partir dos princípios apontados pela Unesco para a educação, o autor identifica oito pontos que urgem por renovação nas instituições de ensino-aprendizagem.

Em uma sociedade globalizada, vivendo a era da tecnologia e da informação - se bem que, muitos países estejam aquém dessa realidade, mas isso é assunto para outro momento -, as escolas precisam acompanhar este ritmo desenfreado para tornarem-se realmente filhas de seu tempo.
Na busca de alcançar este objetivo a Comissão Internacional sobre educação para o século XXI, organizada pela Unesco sob a coordenação de Jacques Delors, elaborou um relatório que posteriormente foi publicado na forma de livro com o título Educação: um tesouro a descobrir (1999). O relatório apontou os quatro pilares para a sustentação das práticas pedagógicas: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser. O primeiro princípio é de suma importância pois, à medida que o conhecimento se expande, “é impossível estudar tudo na escola, por mais que se amplie o tempo das aulas e a duração dos cursos”(p.45). A escola do nosso tempo não será uma mera transmissora de conhecimentos, “enchendo cântaros”, mas aquela que ensinará a conhecer, “acendendo um fogo”, como diria William Butler Yeats. Para Didonet, aprender a fazer é o principio educacional para o século XXI que une ciência e tecnologia com finalidade de “melhorar as condições de vida, elevar o padrão de vida das pessoas, trazer mais bem estar a todos” (p.45). O terceiro e o quarto princípios são aqueles que podem tornar este segundo uma realidade, afinal, somente quando o ser humano aprender a conviver de forma a procurar o melhor para si, simultaneamente à de seu próximo, preocupando-se em cultivar o ser e suas faculdades mais elevadas é que efetivamente veremos as boas condições de vida serem, também globalizadas. Utopia? Provável. Mas, a escola que o século XXI necessita é justamente aquela que procurará desenvolver o individuo de maneira integral, não aquele apenas pronto para o vestibular, mas pronto para exercer sua autonomia, sua capacidade de “julgamento que passa do crescimento da responsabilidade pessoal à realização do destino coletivo” (p.46).
Sob essa ótica os setores de renovação da escola são a universalização da educação em todos os níveis, a garantia das aprendizagens escolares através de um aprimoramento da didática, a escola como um ambiente vitalizante, a gestão da escola em parceria com a comunidade, redefinição de conteúdos, formação para a cidadania, preparação do professor e o uso de novas tecnologias no ambiente escolar. De todas estas esferas, Vital Didonet destaca o sétimo item, a preparação dos docentes, por considerar que o seu gerenciamento ao acesso do conhecimento, a sua mediação para a construção dos mesmos é, em suas palavras, “determinante na transformação da escola” (p.47).
Poderíamos arriscar dizer que o que buscamos exatamente não seria uma escola filha de nosso tempo, tão marcado pelas tensões e desigualdades, mas uma escola a frente de nosso tempo, que encontrará meios de formar homens e mulheres de caráter, que cultivem um corpo e um intelecto sadio, tomando decisões sábias, transformando uma vida de cada vez.








Referência Bibliográfica:

DIDONET, Vital. Por uma escola do nosso tempo. Pátio. Ano II. Nº. 5, mai/jul., 1998, págs. 44 – 47.

4 de setembro de 2007

A Pedagogia do Período da Conquista do Brasil

Introdução

A Pedagogia que aqui vamos retratar embora datada a pouco mais de 500 anos, remonta uma filosofia milenar e que se estende até nossos dias. É a educação que se desenvolveu entre as tribos indígenas que aqui viviam.
Quando os europeus aqui chegaram estima-se que havia no país entre 5 milhões de nativos, sendo que só na bacia amazônica o número chega a 5.600 habitantes e cerca de 1.300 línguas somente nesta região. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis ( região do litoral ), macro-jê ou tapuias ( região do Planalto Central ), aruaques ( Amazônia ) e caraíbas ( Amazônia ).
Neste ponto, destaca Caleffi: “Assim, não existe ‘o índio’ portador de uma cultura homogênea, mas um mosaico de culturas diferentes entre si e diferentes da do colonizador”. (CALEFFI, pág. 33)
Embora a educação indígena não fosse institucionalizada como a que conhecemos hoje, as formas como ocorre a educação e o que esta compreende são características e peculiares de cada cultura.
Os relatos que nos chegam até hoje são dos “descobridores” (e aqui abrimos um espaço para questionar quem são os verdadeiros descobridores desta terra) carregados de preconceitos e julgamentos sob o ponto de vista da sua própria cultura.
Américo Vespúcio ao relatar sobre uma de suas viagens ao Novo Mundo, descreve em um trecho da carta a Lorenzo de Pietro Medice o seguinte: “Esta terra é povoada de gentes completamente nuas, tanto os homens quanto as mulheres. Trabalhei muito para estudar suas vidas, pois durante 27 dias dormi e vivi em meio a eles. Não tem lei nem fé alguma, vivem de acordo com a natureza e não conhecem a imortalidade da alma. Não possuem nada que lhes seja próprio e tudo entre eles é comum; não tem províncias e reinos, não tem reis e não obedecem a ninguém”. Cristóvão Colombo também dá sua contribuição ao se referir aos índios ao reis católicos: “Estes gentios ignoram completamente a prática das armas. Com cinqüenta homens será fácil subjugá-los e fazermos deles o que quisermos.”
[1]
Ao interpretar estes dois relatos percebemos a que nível os povos ameríndios eram considerados pelos europeus: como primitivos e não civilizados, a mercê de qualquer domínio.
A visão européia não deverá servir de parâmetro para esta pesquisa, pois ela é exclusivista, distorcendo o verdadeiro sentido da educação. Caleffi nos ajuda neste sentido ao dizer que “(...) necessitamos um conceito que entenda educação com um amplo processo não vinculado necessariamente ao um sistema de ensino institucionalizado ou mesmo a existência da língua escrita, mas a educação como o processo de socialização dos indivíduos em uma dada cultura. Todos os elementos e noções que um sujeito apreende e que faz dele membro de uma determinada comunidade constitui um processo educativo. Aquilo que aprendemos de nossos pais, parentes e do grupo no qual vivemos, a forma herdada, cotidianamente reinventada de compreensão de um cosmos” (CALEFFI, pág. 32).
Cultura e educação são entendidas como processos inseparáveis, sendo assim impossível desvincular o estudo da cultura indígena de suas práticas educacionais. Desta forma, o objetivo deste trabalho é realizar um estudo da educação indígena em sua amplitude.


A Primeira Pedagogia do Brasil no Período da Conquista pelos Portugueses

A Educação no Contexto Indígena

O índio brasileiro por ocasião da chegada dos portugueses, ainda vivia na época do mito. Embora Tupã fosse seu principal deus, sua religião tinha espaço para adoração de vários outros.
Sua arte era primitiva, extraindo de algumas plantas cores fortes para a ornamentação. O índio era sadio, guerreiro e exímio em caça e pesca. As relações familiares traduziam a felicidade que viviam em seu universo. No mundo adulto permanecia o domínio da imaginação no lugar da inteligência.
“A educação indígena era eminentemente empírica, consistindo, antes de mais nada, em transmitir através das gerações uma tradição codificada. A escola era o lar e o mato; muito mais importantes as lições do exemplo que as das palavras. (...) muito mais empíricas do que científicas, muito mais físicas do que intelectualizadas, modeladoras do homem para capacitá-lo a enfrentar muito mais a vida prática e concreta do que determinada profissão, própria e típica da sociedade e cultura evoluídas”. (TOBIAS, pág. 26)
A seguir vamos analisar algumas aspectos da cultura indígena que envolvem a educação.

Religião/ Mitos

Através das histórias contadas de geração em geração que as culturas de tradição oral conseguem transmitir as novas gerações, as normas de conduta e os mitos (que são as verdades absolutas dos fundadores daquela cultura, portanto são inquestionáveis).
Conforme a citação de Caleffi:
“As normas de conduta social, bem como tudo o que um sujeito necessita saber para fazer parte de uma comunidade de tradição oral, encontram-se presentes nos mitos das culturas destas comunidades, nas histórias sagradas. Os mitos são as histórias exemplares vividas pelos ancestrais e pelos heróis civilizadores em um tempo considerado pré-humano, e contêm todos os ensinamentos necessários que um indivíduo tem que saber para pertencer a uma determinada cultura...” (CALEFFI, pág. 39).
Todos sabem contar estes mitos, e ao fazê-lo estão reafirmando e renovando sua cultura. A memória destes povos é mantida e através dela que a cultura permanece.
Estas histórias são contadas conforme a idade do indivíduo, sua maturidade, sexo e elas lhe dizem respeito dos afazeres e responsabilidades da vida.

Aprender = imitar

Nas comunidades indígenas uma das principais formas de aprendizagem é através da imitação. É imitando os adultos que os pequenos índios aprendem a caçar, a pescar, a ter cuidado com as plantas, etc. Nestes momentos onde as crianças imitam os adultos, propiciam oportunidades para brincar e escutar os ensinamentos dos mais velhos também.
As crianças não são castigadas e são tratadas pacientemente pelos adultos, que respeitam seus enganos infantis e ritmo próprio.
É através desta educação que a criança toma conhecimento dos mitos dos ancestrais, desenvolve aguda percepção do mundo e aperfeiçoa suas habilidades.

Sociedade

A sociedade indígena é fundamentada por laços de parentescos. O individuo se encontra totalmente inserido na comunidade, onde aprende seus deveres e diretos. As comunidades são estabelecidas por graus de parentesco e casamentos.
Estas sociedades apresentam um modo de produção inverso ao capitalismo sanguinário que conhecemos; trabalham apenas para viver.
A divisão do trabalho é feita por sexo e maturidade. Trabalham apenas para satisfazerem suas necessidades diárias. Alcançadas, cessam o trabalho.
Não colhiam mais que necessitavam e não pescavam além do necessário. Toda a sua subsistência era proveniente da natureza. Se, por ventura, houve algum tipo de excedente, a medida a se tomada era confraternização. Desta forma, estendiam-se mais alianças. Esse ato exprime a noção de que não possuíam bens próprios.
As técnicas utilizadas eram simples porque correspondiam a uma produção pequena, voltada para a agricultura de subsistência. Para plantar mandioca, por exemplo, cavavam o chão com algum objeto pontiagudo feito de madeira e enfiavam a rama. Depois de algum tempo arrancavam a mandioca e a transformavam em farinha, por um processo também muito simples. O mesmo se pode dizer da preparação do peixe e da caça que eram levemente assados em fogo brando.
A sociedade indígena possui lideres que eram escolhidos de acordo com a necessidade coletiva. Ele deveria ser generoso, pois assim promoveria a reciprocidade, ato de se alternarem na compartilha de alimentos e assim se socializarem; deveria ter a capacidade de oratória, pois assim ele poderia repetir elementos importantes da cultura e ter coragem para garantir a continuidade do grupo.
A relação de poder existe, mas de modo diferencial. A liderança pode ter um conhecimento mais especifico, de forma privilegiada, mas todos, de acordo com o sexo e maturidade, possuem o mesmo conhecimento. Por exemplo, todas as mulheres sabem fazer cerâmica, se esta fizer parte das atividades femininas na respectiva cultura. “Assim, não vamos encontrar um único professor nas sociedades de parentesco, mas tantos professores quantos sujeitos compuserem a comunidade, o que significa que ninguém possui um status de professor que o diferencie do corpo social. A educação, principalmente das crianças, é assumida pela comunidade como um todo”. (CALEFFI, pág. 38).

Deixando de ser criança

Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.
Em algumas tribos brasileiras, os meninos são iniciados na vida adulta através de uma cerimônia, na qual colocam uma luva cheia de formigas venenosas. Este deverá entrar pelas matas e procurar o remédio. Se não conseguir vencer esta etapa os mais velhos lhe tratam, mas não será considerado adulto.
As meninas que começam a ter menstruações são reunidas em uma cerimônia anual e são embebedadas e tem seus cabelos arrancados.


Conclusão

Para nós, os chamados brancos e civilizados, é difícil compreender e para muitos aceitar as práticas indígenas que se reproduzem ainda hoje.
Como entender uma sociedade sem um Estado institucionalizado, sem lucro nem luxo? Como aceitar o fato que produzem apenas o necessário para a sobrevivência, sem ambição, sonhos materiais?
Os nossos padrões sociais ditam regras que não nos permitem ver além das imposições da elite. Não enxergamos a beleza da convivência em grupo, da compartilha dos bens, na educação que prepara para a vida simples, mas feliz.
Os rotulamos como preguiçosos e primitivos. Sem entender que são satisfeitos e com uma cultura própria. Anulamos a história que esse povo nos legou, sem pensar que se alguns de seus valores fizessem parte da nossa educação, certamente o Brasil seria mais ético, solidário.
Porem, isso não significa que seja tarde para olharmos para o outro como alguém faz parte da minha “tribo” e que pode receber dos meus alimentos excedentes em uma confraternização de caráter recíproco.

[1] Retirado do site: http://www.vidaslusofonas.pt/

Referências Bibliográficas

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia. 3ª edição. Editora Moderna. São Paulo, 2006.
STEPHANA, Maria. BASTOS, Maria Helena Câmara. Histórias e Memórias da Educação no Brasil – século XVI – XVIII. Volume 1. Editora Vozes. Petrópolis – Rio de Janeiro, 2004.
TOBIAS, José Antônio. História da Educação Brasileira. 4ª edição. Editora Ibrasa. São Paulo, 1985. 350 páginas
www.suapesquisa.com.br
www.vidaslusofonas.pt/