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17 de julho de 2008

Victor Hugo, as faces políticas do literato

Por Tafnes do Canto
O ano de 1848 representou para a França uma ruptura com a monarquia, substituída pela República. É sobre essa mudança que Maurice Agulhon discorre em sua obra “1848 – O aprendizado da República” (1991), relatando o episódio sob o viés de uma França que está vivendo diferentes experiências políticas. Tentativa e erro fazem parte do processo de ensino-aprendizagem, por isso Agulhon divide sua obra em “por que a República?”, “tentativa e fracasso do socialismo”, “restabelecimento da ordem”, “ordem ou democracia racial”, “entre a ordem conservadora e a ordem bonapartista” e “do golpe de Estado ao Império”. São todos títulos que sugerem opções, tomadas de decisões feitas coletiva ou individualmente. Poderíamos assim, escolher para este ensaio dialogar sobre um grupo que viveu o ano de 1848 com todas as suas representações. Mas, nossa eleição para este ensaio é conhecer através da obra de Maurice de Agulhon a trajetória e opções políticas de um individuo muito conhecido da literatura, Victor Hugo.

Este que foi o maior poeta romântico de sua nação, também se envolveu na intrincada trama política do período que antecedeu e sucedeu o ano de 1848, passando de uma postura conservadora e monarquista para o liberalismo reformista e os ideais revolucionários. Não é difícil entender sua posição inicial de conservador-monarquista quando conhecemos sua ascendência: Victor Hugo, nascido em 26 de fevereiro de 1802, era filho de um general Napoleônico, chamado Joseph-Léopold-Sigisbert Hugo.


A obra de Aguilhon faz sua primeira menção a Victor Hugo logo em seu capítulo inicial, explicando que o legado literário sobre os monarquistas são mais abundantes do que o dos republicanos. A dificuldade em ver os republicanos representados nas obras de Hugo e outros autores de sua época, pode ser explicada pela complexidade de seus personagens, carregados de simbolismo e retratados de maneira “grandiosamente deformadas, que se torna quase impossível vê-los como tipos sociais representativos” (AGUILHON, 1991, p.12). Mas, a Revolução de 1848 realmente deixou sua marca nos trabalhos de Hugo. Segundo Maurício Silva, em artigo intitulado “Paris, 1848: Literatura e Revolução, “num contexto tão carregado como esse, a literatura produzida em torno da Revolução de 1848 só poderia criar uma atmosfera apocalíptica, que marcaria – consoante a leitura que se fizesse do evento histórico – a morte ou o renascimento de Paris, um tópico literário trabalhado por autores como Victor Hugo” (p.96).

A influência do mentor do romantismo e o brilho de suas obras mantiveram-se intensas quer sustentasse uma postura moderada, calasse ou mudasse de idéia. Para Maurice de Aguilhon, o romantismo deixou sua contribuição no encaminhamento da República de 1848, ao impregnar os franceses de uma ideologia vagamente populista, despertando no “povo um reservatório de forças novas e sadias” (1991, p.19). Aqui, faz-se necessário pontuar que os literatos românticos muito provavelmente não possuíam uma clara percepção das implicações de seus escritos, nem eram estes os únicos responsáveis por uma disseminação de ideais que favoreceram a França ser conduzida à República.

Victor Hugo também deixou registros acerca de alguns dos principais protagonistas da Revolução. A primeira república francesa fora derrubada com o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, na continuidade desta monarquia estabelecida reinava Luis Filipe I. Em 1848, o operariado francês que exigia a instauração da República, contando com a simpatia da burguesia e a liderança socialista de Louis Blanc, destronou o rei Luis Felipe I. Agulhon explica que a influencia inicial de Blanc foi substituída pelo crescente prestígio de Auguste Blanqui, participante das reformas políticas do governo provisório. Hugo descreveu Blanqui como alguém “pálido, de estatura mediana e compleição doentia. Escarrava sangue. Aos 40 anos parecia um velho. Seus lábios eram lívidos, sua fronte enrugada, suas mãos trêmulas; mas percebia-se em seus olhos ferozes a juventude de uma idéia eterna...” (HUGO, 1952, p. 167-170). Neste momento de sua existência, Victor Hugo não era aquele que daria sua vida a um exílio de 22 anos por amor a República, mas um burguês bastante assustado com o poder da força popular, que derrubara a sua veneração inicial, a monarquia de Luis Felipe, o qual o havia nomeado par de França.

Aos 12 dias do mês de novembro de 1848 foi promulgada a Constituição, estabelecendo a república presidencialista e o Legislativo unicameral com base no sufrágio universal. As eleições ocorreram em dezembro e o candidato mais votado pelos ingênuos franceses foi Luis Napoleão Bonaparte - sobrinho do grande general e golpista de Estado. Lamartine e outros, prevendo a ambições monarquistas de alguém cuja família já reinara, tentaram anular a escolha presidencial, sem sucesso. Nestas mesmas eleições Victor Hugo fora escolhido deputado, mas, sua posição política ainda não encontrava-se bem definida, para Agulhon era “impossível saber como classificá-lo, se independente, bonapartista ou órleanista, sem dúvida porém era um ‘republicano do amanhã’” (1991, p. 71). Os relatos de Victor Hugo durante sua imersão política como deputado demostram sua aguda percepção dos acontecimentos, o intelectual não encontrava-se iludido, sabia ele que o juramento feito a Constituição por Luis Napoleão ia contra o que o sobrinho do imperador considerava como seu destino, o trono. Hugo presenciou, inclusive, os comensais do cidadão-presidente o chamarem de “Monseigneur” e “Vossa Alteza”, mostras claras de que os costumes que voltavam a dominar não estavam afinados com a República proclamada. Para Maurice de Aguilhon até fins de 1848 Victor Hugo preferiria um Bonaparte, a gota d’água que o levou a extrema-esquerda foi “o primeiro ato do novo presidente – o de ajudar o papa a derrotar os patriotas italianos” (1991, p.108), uma atitude absolutamente anti a República do qual era representante.

Correndo o risco de ser tachado de oportunista político, Victor Hugo passa de monarquista à republicanista. Quando em 1951 o inevitável ocorreu e Luis Napoleão presidente transformou-se em Napoleão III, imperador, Hugo foi levado a exilar-se por mais de duas décadas. Críticos afirmam ser este seu período de maturação literária, é nele que escreve sua obra mais célebre, Os Miseráveis, narrativa de caráter social.
Com o retorno da República francesa (1870), o outrora defensor do império, que durante o Revolução de 1848 mudou radicalmente seu posicionamento político, retorna do exílio como emblema da resistência republicana, sendo eleito para compor a Assembléia Nacional e senador. Victor Hugo falece em 1885 e são lhe prestadas homenagens em todo o país por sua contribuição política e gênio literário.


Bibliografia

AGULHON, Maurice. 1848 – O aprendizado da República. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

SILVA, Maurício. PARIS, 1848: LITERATURA E Revolução. Eccos Rev. Cient., UNINOVE, São Paulo: (v.2 n.1): 93-127

HUGO, Victor. Souvenirs personnels (1848-1851). Gallimard, 1952. In: AGULHON, Maurice. 1848 – O aprendizado da República. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

7 de julho de 2008

Um Problema de Todos


Um assunto me preocupa. Mesmo não sendo ecologista, sou uma pedagoga preocupada com questões ambientais. Preocupo-me, porque creio que estes problemas não pertencem somente mais aos especialistas, eles são de domínio público. Repousa sobre cada habitante da terra uma parcela da solução deste problema gigante do século.
Confesso que o Ocidente Cristão, por vezes, causa “nós” nos meus pensamentos. Gandhi já dizia que não era cristão por causa dos cristãos, e creio que infelizmente, exista muita lógica nisso. Eu falo porque o pego em contradição freqüentemente. Explico o motivo de agora: na narrativa da criação, Deus ao criar o homem lhe deu a incumbência para cultivar e guardar a Terra. O Houaiss traz a ação de guardar como preservar, zelar, continuar a ter, conservar num mesmo estado, vigiar para defender, e algumas outras definições do mesmo sentido. Não sei dizer quanto ao texto original, mas no hebraico, a palavra deve carregar um significado mais contundente (palpite meu).
O fato é que se no português o texto bíblico já atribui tanta responsabilidade ao ser humano, por que os Estados Unidos, tão professo cristão, é o país que mais polui o mundo? Eu possuo dificuldade em entender quem diz ter uma filosofia e segue outra bem diferente. Que se denominem outra coisa então, menos serem cristãos! Não é um “anti-semitismo americano” (mas bem que eles se acham o Israel moderno, o povo eleito), é um ponto de interrogação que coloco no discurso ocidental.
No mês de janeiro, tive a oportunidade de ouvir a ex-ministra do meio ambiente Marina Silva, no Simpósio Criacionista patrocinado pelo Unasp em Engenheiro Coelho. Aliás, ela foi amplamente criticada por sua participação nele (e dizem que estamos em um país com respeito à liberdade de culto). Ela teve até a oportunidade de ouvir-me tocar flauta. Brincadeiras à parte, continuo meu pensamento.
Ela fez algumas exposições que achei interessantes. O que vou fazer aqui não é uma campanha pedindo o retorno da ministra, nem avaliar seu governo. Simplesmente, vou sublinhar algumas de suas falas e espero não errar na hermenêutica.
Cito algumas de suas ponderações ao relatar o que pretendia fazer ou estava fazendo para punir os criminosos do meio ambiente: “Quer ato mais amoroso que parar o erro?”. Achei a máxima uma bela síntese de um programa educativo para o meio ambiente. Frear o ritmo descabido de atrocidades cometidas contra o planeta é um ato de amor sem questionamentos. É preservar o lar daqueles que estão tentando destruí-lo e não se deram conta disso ainda e oportunizar a eles perceberem os atos grotescos que cometem. Ela arrematou dizendo que “é defender o direito daqueles que ainda nem nasceram”.
Quanto à política de sua administração, afirmou que ela e sua equipe estavam trabalhando “em cima dos interesses do país, não aos do governo”. Bom, vindo de uma ministra, penso que ela puxou o tapete do presidente da república e de toda a sua campanha. Triste, mas ela falou a verdade: há uma dicotomia gritante entre o governo e os representantes do povo. E eu, enganava-me pensando que fossem sinônimos.
Acrescentou ainda que o dever do governo fosse o de “traduzir os conhecimentos em política”. Aí senti que ela disse algo que realmente faz sentido, mas que pouco se pratica. Traduzir os conhecimentos em política. Sim, sabemos como diminuir as causas do efeito estufa, mas se não articularmos meios para pará-lo, de nada adianta o conhecimento. Iniciativas governamentais precisam ser tomadas.
Mas para o governo fazer isso, ela colocou que a opinião publica exerce um papel vital. A sociedade, na visão dela, deve exigir políticas públicas de sustentabilidade. “Aqueles que estão preocupados com estas questões [ambientais], estão aptos a nos governar”, foi o que a ex-ministra Marina Silva comentou sobre a responsabilidade do voto. Democracia exige sabedoria de toda a população, não só dos dirigentes.
Bem que Al Gore tentou ser esta opção na terra do Ronald MacDonald, mas o povo recusou-o por um, poderíamos dizer, mais bélico. O ex-futuro presidente dos Estados Unidos faz, como o apóstolo Paulo, uma viagem “missionária” pelo mundo, tornando-se o porta voz do aquecimento global e suas conseqüências catastróficas. No documentário “An Incovenient Truth”*, Al Gore mostra ao mundo os efeitos desastrosos que o oportunismo e a ambição humana têm presenteado ao planeta. Mas ali, ele também traz um raio de esperança de que a humanidade pode contornar o avanço do aquecimento global, assim como conseguiu diminuir o tamanho do buraco na camada de ozônio.
Lula no discurso sobre a saída da ministra Marina Silva, falou evasivamente: “vamos continuar fazendo o que sempre fizemos”. Desculpe Sr. Presidente, mas não basta ao Brasil uma assinatura no tratado de Kyoto. Precisamos “traduzir os conhecimentos em política” o mais rápido possível. O tempo esgota-se. Continuar fazendo o que sempre fizemos não basta, é preciso muito mais.


Por Liege de Oliveira
* Só para refletir: quantas verdades mais não são inconvenientes aos ouvidos humanos?