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25 de julho de 2007

As práticas idolátricas na América Espanhola: uma manifestação de resistência indígena à ocidentalização

Ronaldo Vainfas declara ser a prática idolátrica “manifestação global de resistência cultural indígena” (1992, p.2) frente à imposição das tradições ocidentais, pelos europeus. O confronto entre idólatras e colonizadores representou não um embate religioso, mas lutas de idéias, costumes e ações morais, éticas. Ela ultrapassou o plano das mentalidades e se fez realidade no momento em que, para preservar sua cultura, indígenas mantinham práticas idólatras, desaprovadas pelos colonizadores ditos cristãos, porém agora, classificadas como ajustadas ou insurgentes.
Idolatrias ajustadas constituíram-se em manifestação de resistência, pois, no recôndito do lar, ameríndios preservavam suas tradições sem, no entanto, afrontar o Estado e a Igreja. Silenciosamente, sustentavam “as cerimônias tradicionais de casamento, o modo indígena de dar nomes aos recém-nascidos, a consulta aos velhos calendários, às práticas divinatórias, o culto dos ancestrais e toda uma gama de usos e costumes proscritos pela Igreja” (VAINFAS, 1992, p.2).
Ao contrário das idolatrias ajustadas, as insurgentes se caracterizavam por reunir indígenas em movimentos que pregavam um “discurso hostil ao europeu” (VAINFAS, 1992, p.3) – cujo, o qual tinha entre suas principais prioridades a extinção das idolatrias, consideradas demoníacas. Assim, estes movimentos buscavam liberdade de culto, como o da Santidade de Jaguaripe (Bahia, 1585 -1586). Outras vezes, apesar do grande número de seguidores, não organizavam “soluções armadas contra o estrangeiro” (VAINFAS, 1992, p.5). Ainda, pode-se citar como práticas idolátricas insurgentes as manifestações promovidas por Martin Ocelotl (México, 1530) e Taqui Ongoy (Peru, década de 60).
Vale lembrar que esta resistência cultural a ocidentalização, seja na forma de idolatrias ajustadas ou insurgentes, não promoveu uma total separação das culturas indígena e européia. O resultado é uma América marcada pelo sincretismo. Exemplo disso são os xamãs, que nos idos de seiscentos, vestiam-se como padres e incluíam os jesuítas em sua hierarquia religiosa. Ou ainda, o caso de Antônio, apresentado por Vainfas, “caraíba-mor que dizia encarnar o ancestral Tamanduare, intitulava-se Papa e nomeava bispos entre seus auxiliares” (1992, p.10). O autor do artigo “Idolatrias e Milenarismos” defende que o fato de indígenas se apropriarem da educação européia não anula o caráter antiocidental dos movimentos de resistência, porque “não bastasse o conteúdo das mensagens, que de várias maneiras hostilizavam e repeliam o europeu, muitos aspectos rituais indicam o apego às tradições e a necessidade de purificar os índios da influencia cristã” (1992, p.11).

Tafnes do Canto
Bibliografia
VAINFAS, Ronaldo. Idolatrias e Milenarismos: a resistência indígena nas Américas. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.5, nº9, 1992. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/92.pdf . Acesso em: 25.abril.2007.

20 de julho de 2007

Sobre a brevidade do tempo para vir a ser

Certamente você já perdeu as contas de quantas mensagens eletrônicas recebeu cujo intuito era levá-lo a meditar sobre a brevidade da vida e a importância de demonstrar seu amor àquelas pessoas que lhe são tão caras. Em dias como os vividos esta semana, na qual registramos o maior desastre aéreo da história de nosso país, foi impossível não refletir acerca deste tema, por isso decidi nestas linhas encarar a possibilidade de ser redundante.
Para tal procurei a ajuda de Shakespeare, afinal de contas todas as vezes que tenho dificuldade em exprimir um sentimento, encontro em suas impressionantes obras as sentenças singelas, capazes de alcançar a profundidade exigida pela emoção. William Shakespeare dizia que “depois de algum tempo você (...) descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto”. E se existe algumas certezas, uma delas é que todos possuímos coisas com as quais não estamos (ou não deveríamos estar) satisfeitos em nosso ser. Dificuldades que convivemos ao longo dos anos e para as quais, entre quedas e tropeços, buscamos soluções. Traços de caráter que nos machucam e abrem grandes feridas em pessoas que tanto bem queremos. Mas os dias passam rápidos e o “tempo é curto”. Estamos muito atarefados para mudar e cultivar relacionamentos. Ocupados demais para buscar e legar o perdão. Assoberbados demais para sermos amáveis, ouvir, abraçar e sorrir. Cansados demais para desenvolver algo além do quociente inteligente.
A razão em detrimento de outras dimensões do ser cegou nossos sentidos e petrificou qualidades essenciais: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança[1]”. E por estarmos aqui refletindo sobre brevidade da vida, sobre esse tempo ser tão curto - como disse Shakespeare- é que está mais do que na hora de aproveitá-lo para promover mudanças em nossa individualidade, tendo em vista jamais subestimar “o poder do carinho, de um sorriso, uma palavra amável, um ombro amigo, dar ouvidos, um elogio honesto, ou o menor ato de dedicação, pois todos têm o poder de transformar uma vida." (Leo Buscaglia).

Tafnes do Canto


[1] Gálatas 5:22.

Deus em Questão



Com a chegada das férias de julho, nada como escolher um bom livro para descansar. E aqui no Ratio Essendi lhe daremos uma boa dica.
Sabe aquele livro que reúne inteligência, leitura agradável e dinâmica, conteúdo acadêmico profundo, desafiante e objetivo? O autor Dr. Armand M. Nicholi, Jr., psiquiatra da Escola de Medicina de Harvard e do Hospital Geral de Massachussetts, consegue reunir tudo isso no seu livro Deus em Questão.
Grandes pensadores já se confrontaram com a questão crucial de acreditar ou não em Deus, e não só eles, como cada ser humano. Armand Nicholi apresenta um debate entre duas grandes personalidades do século XX, C.S. Lewis (o criador das Crônicas de Nárnia) e o famoso psicanalista Sigmund Freud. O autor expõe as idéias a respeito de sexo, amor, sentido da vida e da morte, dor, sofrimento, entre outros, um a favor e outro contra a existência de Deus, sem deixar de lado a história de vida de cada um.
O diálogo entre Freud e C.S. Lewis é simplesmente irresistível, é tão empolgante quanto um romance!

Obs: o livro é da editora Ultimato.

8 de julho de 2007

Pelo Romantismo dos Velhos Tempos e a volta das Sacolas de Feira!

Alguns dias atrás tive o privilégio de prestigiar o casamento de um casal de amigos em São Paulo. Embora atualmente more no interior deste mesmo estado, pude poucas vezes visitar a capital mais afamada do país. Mas consegui conferir rapidamente o panorama da cidade que diariamente tem sua vida registrada nos noticiários nacionais.

Embora eu, gaúcha da metrópole, seja uma cidadã tipicamente urbana, a nostalgia de São Paulo de certa forma contagiou-me. Se no passado as pessoas olhavam para o céu e a natureza e em suas reflexões perguntavam o “por que” e o “como” de tudo, eu reportei-me naquele momento as vastas edificações e em meio à “selva de pedras” perguntei o “para que” de tudo aquilo.

Ao longo dos milênios o homem tem procurado responder questões referentes à sua origem, sua essência, seu papel no mundo, entre outras. Mesmo com o passar do tempo, os dilemas do homem antigo continuam sendo os mesmos do contemporâneo com o agravante de hoje não sabermos responder o “para que” de tudo o que construímos.

Nos últimos anos o avanço tecnológico teve um salto gigantesco no mundo inteiro. Nós desfrutamos de tanto conforto como nenhum antepassado nosso nem mesmo sonhou em ter. A avalanche de conhecimento atingiu boa parte dos habitantes do globo. O fato é que toda revolução tecnológica e cultural que sofremos, fez a humanidade agregar valores distorcidos. Ou seja, atribuímos nossa felicidade a coisas que causam nossa própria destruição. Entramos com tudo em um processo de desumanização, suicídio coletivo.

Levando em consideração o fato de estarmos em um país com a maioria da população cristã, que possui a estrutura do pensamento com raízes filosóficas entre os gregos, judeus e cristãos, tomemos, por exemplo, a visão judaico-cristã sobre o homem para nos aprofundarmos no problema da inversão desmedida de valores. No livro do Gênesis o homem é tido como um ser criado a imagem e semelhança de Deus. Ora, o Deus bíblico tem como maior atributo o amor, tanto que o apóstolo João afirma categoricamente que aquele que não ama não conhece a Deus. Logo se Deus é amor e o homem, na visão judaico-cristã é a Sua semelhança, o homem deveria ter suas atitudes baseadas no amor também. Mas a constatação não é essa.

Volto agora as ruas frias de São Paulo. Confesso que o que mais me angustiou ao cruzá-las foi a sensação de não ser ninguém. Sentia-me invisível dentre tantos prédios e a absurda quantidade de pessoas que utilizavam as vias públicas. Soma-se ao ato a falta de um ambiente, embora urbano, típico humano: com cheiro agradável, as esquinas românticas com sorveterias e casais de namorados, os bancos com velhinhos lendo os jornais e as praças com seus jardins “florindo em crianças” (como diz a típica canção gaúcha). Senti-me arrebatada do meu habitat natural. Isto não é uma crítica a São Paulo, especificamente, é ao estilo de vida que desenvolvemos.

Este relato parece de um caipira que conhece a cidade grande (e não deixa de ser mesmo). Mas estar lá me fez pensar o quanto a “vida na roça” parece-me fazer jus à expressão, porque é lá que eu creio existir vida de realmente. A começar pelo ar, pela natureza e a tranqüilidade. Só isso já bastaria, mas ainda existe o alimento, o trabalho, o sono, a roda de conversas, o calor da família, a igreja,... Tudo isso para mim é a real vida humana. Sem estas coisas, creio ser o equivalente ao peixe viver fora d’água.

Como trocamos tudo isso por toda esta parafernália tecnológica, um sistema opressor, extremamente capitalista e ditador? Acho que pensamos que tudo isso nos traria conforto e consequentemente felicidade. Adaptamos o ambiente as nossas necessidades, em vez de nos adaptarmos a ele, pensando facilitar nosso cotidiano. E hoje, nos readaptamos a cada minuto a uma situação diferente (ás 6 acordo no meu quarto, às 7 estou no ônibus, às 8 no trabalho,...). Industrializamos nosso alimento, acreditando disponibilizar o acesso a todos, ao contrário, colhemos doença. Inventamos tantas mil embalagens, pensando deixar tudo mais higiênico, mas são com elas que sujamos e causamos tantos desastres na natureza. E fizemos isso com vários outros aspectos da vida, mas o pior creio ter sido a busca pelos nossos prazeres e conforto, sem interessar as conseqüências e a quem estaríamos prejudicando, em muitas vezes, nossos próprios filhos.
Por isso eu queria que o romantismo dos velhos tempos voltasse, para que nos inspirássemos a ser mais amorosos, pensar com mais empatia pelo meu próximo, pela natureza, e ser talvez empáticos conosco mesmo no futuro. Peço também a volta das sacolas de feira, resistentes, que uma só nos acompanhava por anos nas compras (e não 4 ou 5 sacolinhas plásticas por compra, que depois vão para o lixo), como símbolo de uma humanidade que abra mão de certas comodidades por atitudes mais ecológicas que visem à saúde do planeta. Só assim garantiremos VIDA às próximas geraçõe

2 de julho de 2007

A Inquisição nos Domínios da América Espanhola

Em seu texto “El Santo Oficio de la Inquisición em la América Colonial”, Solange Alberro discorre sobre o papel desempenhado pelo Tribunal do Santo Ofício, bem como sua importância ou herança deixada por sua atuação na América.
A Inquisição, enquanto instituição, foi concebida pela Igreja no Concílio de Verona, 1183, com o objetivo de resguardar a pureza da fé Católica se fez presente na Europa e, por ocasião da colonização européia da América, também trazida ao Novo Mundo. Os três tribunais aqui instituídos entre 1569 e 1571 – México, Cartagena de Índias e Lima – buscavam vigiar e normatizar internamente a população, trazendo consigo a experiência advinda da prática de processos inquisitoriais na Península, necessitando, evidentemente, de adaptações que considerassem a realidade local. Um olhar especial era voltado aos chamados cristãos novos, judeus supostamente convertidos, mas que em inúmeros casos buscavam na América a oportunidade de manter suas tradições e crenças livres da opressão. Em virtude desta realidade, acrescida pela evangelização dos índios – ainda que batizados, também mantinham as práticas idolátricas tão caras a eles - e o controle mesmo, da população espanhola que aqui, “no paraíso” encontrava tantas tentações é que a Igreja, através do Tribunal, atuou energicamente, “ainda que nada sistemática, a imagem e semelhança de uma Igreja pujante, se bem que marcada pela improvisação” (ALBERRO, 1993, p.271). A função controladora assumida pelo Santo Oficio apresentou-se “insuficiente para conter uma população em crescimento dentro dos limites da ortodoxia em matéria de fé” (ALBERRO, 1993, p.271). Insuficiente, pois estava limitada, segundo Solange Alberro, pelo fato de contarem com recursos humanos e materiais diminutos.
A referida importância da Inquisição relaciona-se a seu legado, ou seja, as marcas que deixa na América. No Novo Mundo, ela apresentou caracteres diferentes da Peninsular, onde apregoava normas hegemônicas, independente do local ou mesmo, classes sociais. Já na América, o Tribunal não cumpriu esta missão. Aqui, por exemplo, os indígenas eram considerados novos por demais na fé para receberem acirradas cobranças. Esta atitude, exclusão dos índios nos juízos do Santo Ofício, representa um dos fatores históricos que tornaram a cultura indígena uma verdadeira ilha aos nossos olhos, porque para Solange Alberro, esta exceção da Igreja pressupunha que a mesma considerava-os ingênuos e incapazes. Assim, apenas as cidades povoadas por espanhóis constituíram-se campo de ação para a Santa Inquisição. Alberro, ainda, mostra que o Tribunal do Santo Ofício, apesar de suas falhas e limitações, foi importante como “válvula de escape para boa parte da população ante situações de tensão ou de crises entendida como ruptura de equilíbrio” (1993, p.278) A oportunidade de denunciar teve efeitos terapêuticos, pois a população que se encontrava, em muitas situações, em meio ao caos podia expressar-se a um órgão reconhecido e cristalizar os problemas em uma pessoa, a acusada. A influência da Inquisição não se limitou ao tempo e espaço da colônia espanhola americana, ainda hoje, adverte Alberro, o Ocidente pratica fundamentalismos que aprendeu com o Tribunal, porém atualmente assumem outras faces.
Tafnes do Canto
Referência Bibliográfica:

ALBERRO, Solange. Inquisición y sociedad em México. 1571 – 700. México: Fondo de Cultura Econômica, 1993. Pág. 266 a 285.